Resenhas
Luzes acesas
São 23h40 quando o celular toca. Na tela, lê-se apenas “Bloqueado”. Uma voz robótica avisa que você marcou um encontrou com Tina, que está lhe esperando.
Tina é uma das quatro pessoas que viraram personagens de A Journal of Insomnia. O novo, e já premiado, webdocumentário da NFB propõe que seus espectadores compartilhem a insônia dessas pessoas – tanto aqueles quatro, quanto os milhares outros que confessaram sua condição ao longo de um extenso questionário. Só é permitido entrar nesse universo quando as luzes se apagam e todos vão dormir. Nem todos.
Para visualizar o webdoc inteiro, é necessário marcar um encontro, que pode ser desde as 20h até as 5h, por exemplo. Um link será enviado por e-mail, que irá liberar o acesso às histórias de milhares de pessoas que enfrentam o problema. A ligação garante que quem estiver dormindo acorde para o encontro.
O webdoc permite ao espectador chegar o mais próximo possível desse estado de constante alerta. Cada uma das histórias dos personagens é contada por meio de um recurso diferente.
No caso de Tina, há quatro fotografias de locais distintos de sua casa onde ela se encontra, claro, acordada. Cada uma dessas situações conta uma parte de sua relação com a insônia e é possível pular de uma a outra, sem muita relação ou continuidade – assim como a mente divaga entre um pensamento ou outro quando não se consegue dormir.
Os outros personagens são igualmente apresentados de maneira que transmite a sensação de ansiedade e perturbação causada pela insônia, acentuando as histórias contadas. Sarah é retratada de modo semelhante ao de Tina, mas com vídeos que seguem uma estética do VHS dos anos 80.
Cada clique do mouse muda o ângulo sob o qual vemos o bombeiro Francis contando sua história. Quando são mostradas cenas do cotidiano de sua profissão, o clique muda também a cena e os ruídos que compõem seu dia a dia. Já o clique e o passar do mouse no vídeo de Fatiha gera um efeito diferente na imagem, como piscar, inverter, duplicar, gerar múltiplos quadros, etc.
Além desses personagens, é possível entrar um pouco na insônia de milhares outras pessoas que participaram um questionário de mais de 80 perguntas disponíveis desde o segundo semestre do ano passado – ainda é possível participar.
Essas perguntas vão desde “o que o mantém acordado” até “o que você pensa sobre a morte” e podiam ser respondidas por meio do envio de vídeos, textos ou desenhos feitos com o mouse. Essa diversidade gera um cenário em que cada pessoa que o espectador clica ganha uma individualidade, ainda que em muitos casos não se saiba seu nome, idade ou sexo.
As histórias individuais pintam um cenário de um problema coletivo, que se revela no webdoc como algo colocado debaixo do tapete. Grande parte das pessoas que compartilharam sua experiência usava medicamentos para poder dormir. Muitas afirmaram saber que eles não ajudavam.
Embora a intenção dos criadores seja retratar a insônia de maneira sensorial e íntima, não escapa a A Journal of Insomnia um questionamento mais político. É mencionado que 30% das pessoas em países desenvolvidos têm o problema. Um voiceover da mesma voz robótica das ligações, a condutora do webdoc, propõe que os insones se unam para recuperar a noite que lhes pertence, enquanto mensagens escritas mostram como a relação com o tempo foi sendo alterada ao longa da História.
A Journal of Insomnia, que estreou simultaneamente com instalação no Festival de Tribeca, retrata de maneira extremamente sensível, nos múltiplos sentidos dessa palavra, um problema que tem apenas se acentuado nas sociedades, mas que escondido pela privacidade do escuro.
A Journal of Insomnia
Produção: National Film Board (Canadá)
Direção: Bruno Choinière, Philippe Lambert, Guillaume Braun, e Thibaut Duverneix
Distribuição: NFB
Em francês ou inglês. Disponível também com legendas em ambas as línguas.
Confira os projetos interativos selecionados pelo DocLab
O DocLab, mostra paralela do International Documentary Film Festival Amsterdam (IDFA), exibiu em sua edição de 2012 mais 15 projetos interativos que merecem atenção.
Desde seu surgimento em 2008, o festival se tornou o principal evento relacionado a projetos transmídia. O DocLab já foi responsável pela divulgação de projetos importantes, como Out My Window e Prison Valley.
Em sua mais recente edição, o projeto premiado foi Alma, documentário lançado em múltiplas plataformas. No ano passado, o vendedor havia sido Insitu.
Confira abaixo os selecionados para a edição de 2012:
A Journal of Insomnia (Canadá) – O web site interativo da NFB se propõe a retratar o problema da insônia de maneira íntima, não clínica. Na primeira fase, o visitante responde a uma série de questões e compartilha sons, imagens e textos. Esse material será utilizado na segunda fase do projeto, em que o visitante será incentivado a vivenciar a insônia.
A Show (EUA) – O comediante e artista on-line Ze Frank criou em seu mais recente projeto, iniciado em abril do ano passado, um web site em que a plateia faz o show. Ze Frank lança em sua página três vídeos por semana, em que fala sobre assuntos diversos de maneira bem-humorada e desafia os visitantes a participarem de “missões” colaborativas. Os resultados vão desde um vídeo animado inspirado em áudios das pessoas falando sobre seus sonhos a um vídeo e música criados a partir de envios de 2.601 pessoas.
Alma (França) – O vencedor da edição 2012 do DocLab é uma produção da Arte, em parceria à produtora francesa Upian. O webdocumentário conta a história de Alma, ex-membro da Maras, uma das mais violentas gangues de Guatemala. O documentário é dividido em duas partes. Em uma delas, Alma narra suas experiências diretamente à câmera, em um fundo preto. Acima, vídeos e imagens complementares são exibidos, possibilitando o espectador a transitar entre os dois. O projeto virou também aplicativo para iPad, documentário para TV, exibição fotográfica e livros.
Bear 71 (Canadá) – Um mapa interativo é a base para retratar a vida dos animais selvagens no Banff National Park, em Rocky Mountains, no Canadá. O foco é no urso 71, número fornecido pela vigilância do parque. Por meio de uma narração em primeira pessoa do animal e de vídeos de vigilância, dados e fotografias, o webdocumentário levanta questões sobre a relação do homem com a tecnologia e a natureza.
CIA: Operation Ajax (EUA) – O aplicativo criado para o iPad, também disponível para iPhone, combina elementos de graphic novel e documentário de animação. De maneira interativa, a produção reconstrói em dez capítulos os eventos históricos sobre a derrubada da democracia iraniana, em 1953, com apoio da CIA.
Cowbird (EUA) – “O lugar mais bonito do mundo para contar histórias.” É assim que é autodescrito o web site Cowbird. Nele, os usuários (cidadãos), compartilham histórias pessoais por meio de imagens, normalmente acompanhadas por textos ou, às vezes, sons. As histórias podem ser procuradas por tags, “sagas” (histórias comuns a milhões de pessoas) ou coleções criadas pelos usuários.
Gol! Ukraine (France) – A Eurocopa, que aconteceu na Polônia e Ucrânia em junho de 2012, serviu de inspiração para essa produção do Le Monde. Os 12 vídeos do se dividem em seus dois apresentadores, Oleg e Katya. O mundo dele gira em torno do futebol na Ucrânia; o dela, em torno da sociedade. Os visitantes são estimulados a cumprir tarefas para liberar material do webdocumentário, como se fosse um jogo.
At Home (Canadá) – O webdoc da NFB é um estudo que acompanha o projeto governamental que se propõe a resolver a situação dos moradores de rua, oferecendo-lhes um lar. Leia a resenha.
Keep on Steppin’ (Holanda) – A cineasta e fotógrafa holandesa Marjoleine Boonstra registra aqueles lugares cujo registro foi abandonado. Foram utilizadas fotografias, vídeos e animações para contar histórias daqueles que permaneceram após desastres, como a cidade de Nova Orleans, após o furacão Katrina. O projeto consiste em um webdoc, um aplicativo para iPad e um livro.
MAFI.tv – Filmic Map of a Country (Chile) – A plataforma on-line consiste em um registro do Chile atual, filmado por diversos cineastas. Cada vídeo é composto por uma única tomada, de 1 a 2 minutos. Todos eles têm uma posição determinada no mapa. Há a opção de navegação por tema, cineasta, data ou local.
mödern cøuple (França) – A produção da Arte investiga o evento da paternidade. O webdoc divide o tema no mundo das mulheres e homens, que lidam com a situação de maneiras diferentes. São 14 vídeos ao todo, que exploram temas como a capacidade de multitasking e as transformações do corpo. Cada um é acompanhado de uma enquete, em que podem ser vistos as respostas deles e delas.
Pointer Pointer (Holanda) – O web site interativo parte de uma proposta simples: segure o mouse em qualquer parte da tela e aparecerá uma imagem de alguém apontando para onde você apontou. O projeto procura conceder atenção aos mouses, enquanto ainda não desapareceram com o fortalecimento das telas touch
Punched Out: The Life and Death of a Hockey Enforcer (EUA) – O documentário esportivo do New York Times conta a história de Derek Boogard. O jogador de hóquei morreu aos 28 anos devido a uma overdose acidental de álcool e analgésicos. Ele sofria com traumas crônicos no crânio devido aos golpes durante os jogos. Dividido em três blocos, slide shows, imagens e vídeos complementares ajudam a narrar os eventos do documentário.
The Block: Stories from a Meeting Place (Austrália) – O wedocumentário permite o visitante explorar, por meio de sua plataforma, o The Block. O distrito é uma área residencial dedicada aos aborígenes, em plena Sidney. O webdoc retrata as dificuldades enfrentadas no local, que está à beira da extinção, mas também a sensação de comunidade encontrada por seus moradores. Há diferentes possibilidades de visualização do conteúdo e uma parte dedicada a discussões por meio de comentários dos internautas.
The Gallery of Lost Art (Reino Unido) – O projeto da Tate Modern tem a intenção de jogar luz ao problema das perdas de obras de arte. A exibição on-line conta a história de obras de arte que foram roubadas, destruídas ou simplesmente desapareceram. Nomes como Marcel Duchamp e Joan Miró fazem parte da exposição, apenas virtual. Uma nova obra é adicionada semanalmente, até o desaparecimento da própria galeria, em meados de 2013.
A voz e força da periferia, a força e voz da literatura
“A poesia desce do pedestal e beija os pés da comunidade.” É a frase do escritor Sérgio Vaz, criador do Sarau da Cooperifa, que serve de inspiração para o nome do primeiro bloco de A Força da Palavra. É ela também que resume o tema do webdocumentário sobre a literatura da periferia, produzido por Felipe Gonzalez, Marina Maciel e Mirtes Anjos como Trabalho de Conclusão do Curso de Jornalismo da Universidade Metodista de São Paulo.
O webdocumentário se propõe a registrar uma das maiores expressões da cultura da periferia. Ela é expressa principalmente em saraus, um dos movimentos literários que mais se expandem em cidades como São Paulo. Não é vinculado à academia e à elite que os saraus têm ganhado força. Sua voz tem sido projetada na periferia.
Esse tema é exposto em cinco blocos, cujos vídeos são hospedados no YouTube e possuem em torno de 7 minutos. A simplicidade da produção não mascara, no entanto, a qualidade das imagens registradas e da força do tema.
Os vídeos procuram expor as opiniões de diversos personagens importantes do cenário literário da periferia, incluindo Sérgio Vaz. Além disso, são contrabalanceadas entrevistas com pessoas de fora do movimento, como da ensaísta Heloísa Buarque de Hollanda e do jornalista Audálio Dantas. A inclusão desses críticos vai ao encontro da visão do webdoc da literatura da periferia não apenas como expressão cultural periférica, mas como movimento pertencente à literatura atual.
O webdocumentário mostra ainda cenas de seis saraus na região metropolitana de São Paulo. No entanto, as palavras que recebem maior atenção são aquelas das entrevistas. A escolha confere à produção um enfoque na visão política e social de quem faz e observa o movimento, o que não deixa de ser um recorte interessante.
A Força da Palavra
Produção: Felipe Gonzalez, Marina Maciel e Mirtes Anjos
As donas da estrada
Engana-se quem acredita que caminhão é coisa de homem. Ailime Kamaia e Luzimary Cavalheiro embarcaram no universo das mulheres que trabalham na estrada no webdoc Caminhoneiras, no ar desde o final de outubro. O projeto foi construído para um Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) da Universidade Positivo, em Curitiba.
São quatro personagens que contam sobre seu cotidiano em um mundo tradicionalmente masculino. Em entrevistas, elas falam sobre temas como família, amores, alimentação, vaidade, segurança e drogas, em vídeos com curta duração, entre 4 e 6 minutos.
No menu inicial de Caminhoneiras, há um link para uma explicação sobre como navegar pelo webdoc. Considerando que o formato ainda é pouco conhecido, é uma boa ideia. A estrutura, no entanto, é bastante simples e intuitiva. Os vídeos são separados por assuntos, dispostos em ícones.
Além do filme principal sobre o assunto escolhido, há na lateral vídeos compostos por histórias contadas por uma das personagens ou explicação sobre o assunto – por exemplo, quando uma farmacologista explica o efeito do rebite, droga bastante utilizada pelos caminhoneiros.
Em determinados temas, os vídeos são substituídos por fotografias – recurso bastante explorado pelo webdoc para mostrar detalhes que poderiam passar despercebidos no movimento da câmera e do caminhão. Além disso, novos conteúdos serão acrescentados ao longo do tempo. E há um espaço para que as próprias caminhoneiras relatem suas histórias.
A abertura das mulheres retratadas para falar sobre os assuntos torna o documentário mais envolvente. As estudantes embarcaram com algumas das caminhoneiras em suas viagens, acompanhando-as em seu ambiente natural, embora a viagem em si não seja mostrada diretamente nos vídeos.
Com uma estrutura simples, Caminhoneiras permite ao espectador construir um pouco de um universo pouco conhecido para quem vê os caminhões apenas do lado de fora – todos os vídeos são filmados de dentro deles. “Costumo dizer que nas minhas veias não corre sangue, corre diesel”, brinca em determinado momento a caminhoneira Rosângela Silva Santos, conhecida como Cigana.
Caminhoneiras
Produção: Ailime Kamaia e Luzimary Cavalheiro
Na capital do grafite
“O que diferencia o grafite das outras street art?”, questiona Binho Ribeiro, um dos personagens entrevistados no Webdoc Graffiti. “É a cultura, de onde ela vem, a raiz”, ele mesmo responde. É justamente a cultura do grafite na cidade de São Paulo que é abordada neste webdocumentário, produzido pela Doctela e dirigido por Giovanni Fransischelli.
São Paulo é reconhecida como um dos grandes centros urbanos do grafite. É interessante observar como uma arte nascida na década de 1970 nos Estados Unidos é tão presente no cenário paulistano. O grafite parece pertencer ao cinza, à velocidade e diversidade de uma cidade como São Paulo.
Pode-se dizer que a relação do grafite com a cidade é o grande tema do webdocumentário, mas ele é mais do que isso. Não é possível fazer um retrato único do grafite em uma cidade do tamanho de São Paulo. São muitos os estilos, os grupos e artistas que compõem as imagens que pintam as ruas das cidades e os vídeos do webdocumentário. Nesse sentido, a não-linearidade serve bem para mostrar a diversidade da produção paulistana. Cabe ao internauta, assim como ao cidadão, escolher por onde passar e para onde olhar.
A plataforma que o webdocumentário utiliza é bastante simples. Os filmes são separados em episódios temáticos, cada um com quatro vídeos (hospedados no YouTube) e um ensaio. É possível escolhê-los por episódio ou por tags, que incluem o artista e o lugar das obras; ou visualizar o mapeamento de cada obra pela cidade.
Ao longo dos vídeos, aparecem links para o mapa, que abre em outra janela. A interação traz a possibilidade de o internauta sugerir um novo marcador com um grafite que não está no mapa.
Contando com dois episódios atualmente, o webdoc tem o formato de série, com vídeos lançados mensalmente. Vale a pena acompanhar o desenvolvimento do webdocumentário sobre um universo tão complexo e particular.
Este é o segundo webdoc de Giovanni, autor também de O Artista e a Praça. Antes de criar a Doctela, Giovanni trabalhou na Cross Content, onde participou dos projetos Rio de Janeiro – Autorretrato e Petróleo – Combustível da Vida Moderna.
Produção: Doctela
Direção: Giovanni Francischelli
Confira selecionados para Prêmio do Webdocumentário
Criado em 2009 em parceria ao festival internacional de fotografia Visa pour l’image – Perpignan, o Prêmio France 24 – RFI do Webdocumentário foi um dos primeiros a reconhecer projetos de narrativa transmídia e multimídia. As inscrições são abertas a qualquer interessado e têm como requisito que o projeto seja um webdocumentário sobre tema atual.
Nesta sua quarta edição, o prêmio traz projetos diversificados em termos de plataforma – alguns mais elaborados (Défense d’Afficher) e outros mais simples (François Duprat, Une historie de l’extreme droite). Os temas abordados são em maioria sociais e políticos, mas há nessa edição também um webdoc sobre uma pesquisa científica (Rewalk).
A Arte TV e a France Télévisions são os campeões em indicações, com duas produções cada. É interessante notar que dois deles (Pourquoi t’y Crois e Paroles de Conflit) não teriam sido feitos se não fosse por financiamento por crowdfunding.
Confira abaixo os indicados.
Afghanistan, 10 years, 100 viewpoints - Aproveitando os 10 anos de ocupação americana no Afeganistão, a Arte TV se propõe a contar essa história com personagens e aspectos muitas vezes esquecidos pelas reportagens jornalísticas na última década. Divididos em 10 temas, cada um com 10 visões diferentes, os vídeos são por vezes auxiliados por mapas e desenhos. Há a opção de participação do internauta na seção de cultura no Afeganistão, porém não consta nenhuma colaboração.
Défense d’Afficher – Oito artistas urbanos de países diferentes viram personagens nessa produção da France Télévisions. Cada um comenta seu ponto de vista sobre seu trabalho e faz outras reflexões. Para navegar entre um artista e outro, o espectador é inserido no cenário urbano por meio de um vídeo que viaja e explora as ruas da cidade até encontrar a próxima obra. Há ainda o menu com cada filme em separado. Na opção “Para saber mais”, um mapa localiza as obras dos artistas e inclui links para outros sites.
Farewell, Comrades – Os cartões-postais servem de navegação desse webdocumentário, ao mesmo tempo que como ponto de resgate da memória de residentes do bloco de países que compunham a União Soviética. É possível também navegar pelo mapeamento dos personagens ou por temas retratados pelos vídeos, como utopia, resistência, religião e artes. Há uma linha do tempo com textos informativos da história da URSS. O projeto já havia sido selecionado para a competição do DocLab do festival de Amsterdã.
François Duprat, Une historie de l’extreme droite – O momento parece oportuno para contar a história de François Duprat, um dos idealizadores do partido de extrema direita Frente Nacional. O webdocumentário foi lançado pelo Le Monde no começo do ano passado, antes dos números históricos alcançados por Marine Le Pen nas eleições deste ano. é composto por quatro blocos dispostos verticalmente na mesma página: vídeos, linha do tempo, personagens históricos e textos de apoio ao vídeo. Veja mais na resenha.
Homs, Au coeur de la revolte syrienne – Com plataforma baseada no mapeamento, retrata a resistência em Homs, uma das principais cidades da revolta popular na Síria. O espectador tem duas opções: seguir cronologicamente o caminho perseguido pela repórter fotográfica Caroline Poiron ou escolher livremente entre os vídeos distribuídos pelo mapa da página principal. O documentário é composto por vídeos, fotos, textos e sons registrados pela equipe da France Télévisions.
Paroles de Conflits – O jornalista Raphaël Beaugrand partiu sozinho de bicicleta numa viagem de Paris a Hiroshima. Ele registrou sua passagem por oito países “vítimas da história”. Todos passaram por situações de guerra. Os vídeos, as fotografias e as notas narram os encontros e as impressões do jornalista e dos moradores desses países. Após cada vídeo, é possível prosseguir o caminho ou conferir algum bônus – fotografias ou notas sobre o local. Há a opção de um mapa ou de ver os vídeos por país.
Pourquoi t’y Crois – Segue seis jovens militantes políticos de partidos diferentes nas campanhas para as eleições presidenciais ocorridas neste ano na França. O título é bastante apropriado, uma vez que os autores estão mais preocupados em registrar o porquê das personagens terem entrado para a ação militante do que suas visões políticas. Há a opção de segui-los cronologicamente, numa linha do tempo, ou selecionar por militante os vídeos, baseados em fotografias e narrações em voz over.
Rewalk – Plataforma extremamente simples, com vídeos divididos em episódios temáticos e bônus. O webdocumentário impressiona pelo tema e pelas imagens. Ele mostra o projeto de cientistas do Instituto Federal Suíço de Tecnologia em Lausanne que fizeram ratos paralisados voltar a andar e pretendem levar os resultados para seres humanos. Os vídeos contam com os cientistas explicando a pesquisa, com ajuda de infográficos, e imagens das experiências com os ratos.
Webdocs olímpicos contam histórias de vida e de superação
Se os jogos olímpicos de Pequim em 2008 marcaram a história pela transmissão em alta definição, os de Londres deverão entrar para os registros como as olimpíadas mais interativas e sociais até hoje.
O próprio Comitê Olímpico Internacional incentivou os atletas e o público a twitarem sobre o evento. Eles só não esperavam que as pessoas os obedecessem tanto. Apenas a cerimônia de abertura teve mais tweets do que toda a olimpíada de 2008. Após a quantidade expressiva de mensagens ter comprometido a rede de transmissão televisiva, o diretor de comunicações do COI pediu ao público que considerasse usar as redes para apenas assuntos mais urgentes.
Esse episódio se explica pelo enorme crescimento das redes sociais nos últimos anos. O Twitter pulou de 6 milhões de usuários em 2008 para 500 milhões. O Facebook foi de míseros 100 milhões para 900 milhões, segundo dados consolidados neste infográfico da agência Pappas.
Embora a maioria dos sites jornalísticos ou de cobertura do evento use vídeos e infográficos como elementos, poucos produtores de conteúdo perceberam a oportunidade de integrar esses recursos por meio da criação de webdocumentários.
Pode-se justificar essa presença discreta pela própria complexidade da plataforma dos webdocs, que demanda muito mais tempo para ser construída. Mas o caminho trilhado por aqueles que apostaram nesse formato mostra que, se não têm a velocidade e a “temperatura” da cobertura instantânea, os webdocs podem agregar muito em termos de profundidade e variedade de conteúdo – além de trazer um caráter mais humano e intimista ao conteúdo.
Veja abaixo alguns exemplos interessantes de webdocs que giram, direta ou indiretamente, em torno dos jogos olímpicos:
- Des Années pour des Secondes (anos por segundos, em tradução livre), L’Equipe – O webdoc acompanhou o treinamento de 13 atletas franceses para as olimpíadas de Londres. A estrutura em si é extremamente simples, com vídeos individuais por atletas. O webdoc mostra um lado pouco visto sobre a dedicação desses atletas. Após assisti-lo, ver os atletas em ação nas olimpíadas é ainda mais impressionante.
O L’Equipe lançou também o webdoc Dream Team, sobre o time de basquete americano dos jogos olímpicos de 92.
- London, etc, AFP – A agência escolheu a própria cidade de Londres como tema para seu webdoc. O formato se adéqua à ideia de fazer uma pequena apresentação geral de tudo, sem se aprofundar muito em nada. Ainda assim, o webdoc consegue informar sobre a capital inglesa, passando pela arquitetura, disparidade econômica, transporte, cultura, parques e diversidade étnica. Embora visualmente esteja mais próximo de uma apresentação elaborada de PowerPoint, o webdoc usa de diversos recursos (infográficos, vídeos, fotos) de uma maneira simples e intuitiva.
- Olympic Bodies (corpos olímpicos, em tradução livre), The Guardian - Na corrida da interatividade, o The Guardian leva o ouro. A equipe de do web site do jornal tem buscado maneiras novas e divertidas de contar os mais diversos ângulos sobre o evento.
O vídeo interativo Olympic Bodies reúne 31 atletas britânicos em uma análise de seus corpos que deixaria Leni Riefenstahl com inveja. O espectador tem a opção de assistir ao vídeo inteiro ou ver pelo modo “interativo”. A primeira opção mostra em imagens belíssimas os corpos dos atletas, com narração em voice over deles e de estudiosos. A combinação dos depoimentos com as imagens transmite um relato do corpo como não apenas uma questão estética, mas como um símbolo inclusive de efemeridade.
Na opção interativa, esse aspecto se perde um pouco para o valor estético. Em uma plataforma simples, mas bonita, é possível passar pelos atletas, escutando os sons de sua modalidade esportiva. Ao clicar neles, é exibido um vídeo curto e mudo de cada um, com o depoimento escrito abaixo.
Além disso, a equipe produziu o excelente jogo retrô Could you be a medallist? (você poderia ser um medalhista?), que reúne dados sobre tempos olímpicos de atletas em diversas modalidades de diferentes gerações. Vale destacar também o mapa interativo da tocha olímpica e o tour virtual em 360º do parque olímpico.
- Jeux Olympiques 2012, le Revers de la Médaille (jogos olímpicos 2012, o outro lado da medalha, em tradução livre), Médicos do Mundo – A ONG aproveitou os jogos olímpicos para chamar a atenção para a política imigratória inglesa. O webdoc retrata a situação precária em que vivem alguns imigrantes em Calais, no litoral norte da França, que, assim como os atletas, sonham em chegar à Inglaterra. Conta com três slide shows sonoros, mais alguns vídeos, que incluem entrevistas com membros da ONG comentando sobre as condições de vida dessas pessoas e o que pode ser feito para ajudá-las.
Das ruas para casa
A National Film Board se uniu ao Mental Health Comission do Canadá para lançar o webdoc Here At Home. A produção, em formato de série, acompanha os participantes do projeto At Home, estudo experimental que tem como objetivo propor soluções para os problemas relacionados a moradores de rua.
Iniciado em 2009, o At Home tem como princípio dar uma casa aos moradores de rua e só então lhes oferecer acompanhamento psicológico. Esse método já foi utilizado com resultados positivos em algumas cidades dos Estados Unidos, como Nova York. O estudo canadense, que terá fim em 2013, reúne 1.256 moradores de rua, que receberão casas no período, além de assistentes sociais e outros participantes. Os dados colhidos serão analisados por pesquisadores, que medirão se essa é uma política eficiente.
O webdoc começa com uma introdução ao assunto, expondo a ideia do projeto e deixando claro seu caráter experimental. O visitante entra, então, na página inicial, em que estão localizadas as cinco cidades participantes. O design é simples, mas bonito: pontos coloridos ligados às cidades por linhas, em constante movimento. É possível escolher os vídeos clicando nesses pontos, ou explorar todo o conteúdo referente àquela cidade.
Cada cidade participante conta com uma equipe de filmagem. Serão produzidos dez vídeos por local, dos quais 42 ainda serão colocados no ar no decorrer do projeto.
Os vídeos têm duração de 3 a 4 minutos e relatam um determinado ponto de vista do projeto. A maioria é sobre os próprios moradores em suas novas casas, mas há também a visão dos assistentes sociais, ou de um indivíduo que não foi aceito no programa.
Há ainda o uso de infográficos nas páginas das cidades, contextualizando determinados dados, como a incidência de distúrbios psicológicos ou a prevalência de determinada etnia entre os moradores de rua daquele local. Após a exibição do vídeo, há a comparação entre o custo para se manter uma pessoa em hospitais ou prisões, situação muito comum entre os participantes do projeto, e em uma casa. Esse último é sempre menor.
O webdoc não tem muitas funções participativas, além do compartilhamento em redes sociais. Seu design e interface são bastante simples. O grande foco do projeto é o estudo e seus participantes. E, nisso, ele é muito eficiente.
Here At Home
Produção: National Film Board of Canada, em associação com Mental Health Comission of Canada
Em inglês ou francês
15 projetos interativos que você deve conhecer

The Next Day - NFB, Canadá
A cada ano, o DocLab, que acontece em novembro paralelamente ao International Documentary Film Festival Amsterdam (IDFA), vem se firmando no mundo digital com o mesmo peso que o evento principal tem para o universo do cinema documental.
Iniciado timidamente em 2008, o DocLab cresceu em abrangência e representatividade e provavelmente é hoje a vitrine mais importante da produção transmídia de não ficção, assim como o IDFA é o grande referencial em cinema documentário.
O DocLab passou a ter um caráter competitivo em 2010, quando o vencedor foi Highrise: Out My Window. Este ano, o projeto premiado foi Insitu, mas vale a pena conhecer os 15 trabalhos selecionados para a competição. Alguns não se encaixam na categoria de webdocumentários. São blogs ou sistemas interativos para visualização de dados, por exemplo. Mas todos têm uma contribuição de inovação a dar para o cenário da produção audiovisual transmídia.
Abaixo, pequenos comentários e links para todos eles.
Barcode.TV (Canadá) – Uma interface lúdica e participativa: digite o nome de um objeto doméstico ou escaneie seu código de barras para ter acesso a um pequeno documentário sobre ele. São 100 minifilmes, criados por 30 realizadores diferentes. Além do webdoc, há também um aplicativo para iPhone. E uma exposição itinerante percorre diversas cidades europeias.
Beyond 9/11 (EUA) – Produzido pela revista Time em conjunto com a HBO, é uma coleção de depoimentos de cidadãos a respeito de sua visão pessoal do atentado de 11 de setembro de 2001. Tocante, porém tradicional no formato e na abordagem.
Condition One (EUA) – Aplicativo para iPad que cria uma plataforma para publicação de documentários “imersivos”. Toque na tela para alterar a perspectiva da cena e acompanhar a ação com um ângulo de visão de 180 graus.
Farewell Comrades (França) – Memória dos 20 anos do fim da União Soviética por meio de um vasto projeto transmídia, que inclui uma série de filmes para a TV e um webdocumentário com uma narrativa muito interessante. A navegação principal é feito por cartões-postais de época, cada um ligado a um dos participantes da trama. Cada personagem é apresentado em um vídeo próprio, mas é possível também se navegar por temas – como artes, mídia, resistência etc.
Goa Hippy Tribe (Austrália) – Uma coleção de vídeos publicados ao longo de 2010 no Facebook sobre a comunidade hippie de Goa, na Ásia, foi o ponto de partida para este webdoc. O projeto foi acrescido por galerias de fotos, textos e outros complementos. Use seu login do Facebook para guardar informações sobre os trechos já vistos e para “destravar” os conteúdos extras (qualquer semelhança com o método usado em Prison Valley será mera coincidência?).
Highrise: One Millionth Tower (Canadá) – Segundo documentário interativo da série já premiada pelo IDFA em 2011. Mais detalhes nesta resenha.
Insitu (França) – Projeto transmídia incluindo um documentário de cinema de 90 minutos, um webdoc e um aplicativo para iPhone a respeito de intervenções artísticas no espaço urbano europeu. Pode ser visto on-line de maneira linear ou em trechos. Os internautas também podem mandar conteúdos (vídeos e fotos), acessíveis a partir de um mapa.
Powering a Nation: Coal – A Love Story (EUA) – Projeto integrante do News21, programa da Knight Foundation que tem por objetivo incentivar o jornalismo investigativo interativo nas escolas de comunicação americanas. Vídeos, textos e gráficos contam a importância do carvão mineral, principal fonte de energia nos Estados Unidos, e as consequências de seu uso. A barra de rolagem vertical leva o internauta de um vídeo a outro. A interface é agradável, embora mantenha uma navegação praticamente linear (exceto pelos conteúdos do tipo “leia mais”).
Soldier Brother (Canadá) – Uma voz em over e uma série de mensagens de texto compõem a narrativa central deste webdoc diferente. Relata a história das conversas em SMS e no Facebook entre um soldado canadense em guerra e sua irmã, Kaitlin Jones (a voz em over no documentário).
The Burning House (EUA) – Se sua casa estivesse pegando fogo, o que você salvaria? Esta é a pergunta feita aos internautas, que enviam respostas por escrito e fotos de seus pertences. Ver e comparar as escolhas de cada um é interessante. Mas o resultado está mais para um blog participativo do que para um webdoc. Ou não?
The Next Day (Canadá) – Documentário em formato de animação. Com desenho simples e monocromático, conta de maneira sensível a história de quatro personagens que sobreviveram a tentativas de suicídio. A navegação se dá por palavras que demonstram emoções e sentimentos, como “raiva”, “ameaça” etc. Projeto multimídia, inclui também um livro de desenho em quadrinhos, com a mesma linguagem visual do webdoc.
The Prism: Krisis Greece 2011 (Grécia) – Coleção de 27 curtas metragens de 14 fotojornalistas gregos retratando a crise econômica do país. Compilados, viraram também um longa para cinema. E uma exposição fotográfica em Atenas.
The Sexperience 1000 (Inglaterra) – Um grande infográfico animado sobre as preferências e os hábitos sexuais dos britânicos. São 20 questões sobre temas diversos, desde a idade da primeira relação até as escolhas de locais heterodoxas para o relacionamento amoroso – como um trem ou o escritório. Várias possibilidades de filtros, como gênero, idade, local de residência e nível educacional, tornam as opções de visualização quase infinitas.
The Zone (França) – Uma visita à área de exclusão ao redor da usina atômica de Chernobil, na Ucrânia, local do acidente nuclear de 1986. Inclui vídeos e fotos, divididos em oito capítulos temáticos.
Via PanAm (Holanda) – Projeto multimídia que inclui livro, spots de rádio, um web site e um aplicativo para iPad. O repórter fotográfico Kadir van Lohuizen trata da questão da imigração no continente americano, cobrindo desde o Chile até o Alasca em uma viagem iniciada em março de 2011 e que deve ser concluída em fevereiro, 28 mil quilômetros depois.
Observação importante: dos 15 projetos, 4 são produzidos pela National Film Board (NFB) do Canadá, reforçando a força da instituição no cenário dos filmes interativos. O NFB havia sido o vencedor no ano passado, com Highrise. Com isso, o Canadá foi também o país que colocou o maior número de projetos da lista (4), ao lado dos EUA, ambos seguidos pela França, com 3.
Produção de webdocs nacionais começa a tomar fôlego

O Artista e a Praça - Giovanni Francischelli
Aos poucos, bem aos poucos, começa a ganhar força um grupo de pessoas preocupadas em discutir e produzir webdocumentários no Brasil.
Quando criamos este blog, há quase dois anos, a produção nacional era praticamente inexistente, pelo menos quando se pensa em projetos mais complexos, interartivos e/ou participativos.
Nesses dois anos, no entanto, algumas coisas melhoraram. Da nossa parte, nós, da Cross Content, produzimos três webdocs: Filhos do Tremor – Crianças e seus Direitos em um Haiti Devastado, em 2010, Rio de Janeiro – Autorretrato e Petróleo, Combustível da Vida Moderna, ambos em 2011.
Ao mesmo tempo, este ano começaram a surgir novos trabalhos vindos de diversas áreas – desde iniciativas em movimentos populares a projetos ligados a oficinas de produção. Correndo o risco de ser injusto com os não citados, gostaria de destacar três desses projetos.
Ipiranga, 895 – Trabalho que retrata o movimento por moradia no centro de São Paulo. Tem uma abordagem que privilegia o uso de textos mais longos e deixa o vídeo um pouco em segundo plano na narrativa.
O Artista e a Praça - Fruto de uma oficina de webdocumentário realizada em Campinas (SP), este trabalho se organiza a partir do software Korsakow. O Korsakow é um programa aberto para criação de filmes não lineares. Sua estrutura é baseada na construção de bancos de dados de pequenos trechos de vídeos, indexados por palavras-chave, permitindo a navegação cruzada. O resultado final é um interessante quebra-cabeça no qual um trecho de vídeo que assistimos nos conecta a inúmeros outros, dando a sensação de navegação “sem fim” (leia mais sobre este projeto).
Periferas Musicais – Iniciativa do projeto Viva Favela, consiste em uma série de pequenos documentários em vídeo sobre a cena musical nas periferias do Rio de Janeiro, também acompanhados de galerias de imagens. Neste caso, os vídeos foram publicados no próprio site do Viva Favela e, por falta de verbas, não houve propriamente a montagem de uma programação e um layout que integrasse os conteúdos em um conjunto único. Mas a intenção de documentação multimídia está por trás de todo o projeto.
Embora tenhamos muito o que caminhar, não deixa de ser animador ver a proliferação de bons exemplos de projetos brasileiros.
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