Resenhas

Planeta Gálata – uma ponte em Istambul

Planète Galata - Arte.tv

Planète Galata - Arte.tv

O patrão de um determinado restaurante, dois cozinheiros do restaurante vizinho, um assíduo apostador de cavalos, dois catadores de papel, um jovem menino que sonha ser pescador… Todos são personagens que habitam ou vagam pelas áreas próximas à ponte Gálata, na capital da Turquia. A partir de seus depoimentos, suas memórias e opiniões, o espectador de Planète Galata (Planeta Gálata), constrói uma imagem própria sob o microcosmo que representa a lugar.

Na fronteira cultural do globo, no limite entre ocidente e oriente, é difícil dizer se Istambul é o começo de um ou o final do outro. A famosa ponte Gálata, que une duas regiões da cidade, representa bem esses diferentes traços que fazem de Istambul uma das mais heterogêneas capitais. O filme, realizado pelo renomado documentarista e artista multimídia alemão Florian Thalhofer, tenta abordar alguns aspectos dessa realidade numa narrativa multimídia.

Thalhofer deve saber como ninguém que, como dizia o diretor e produtor francês Jean Renoir, cada espectador vê um filme diferente em função de sua própria existência. Talvez partindo dessa idéia, e insatisfeito com as limitações da narrativa linear clássica do documentário, o realizador tenha criado a plataforma Korsakow, na qual foi feito o projeto.

Korsakow é um software para criação de narrativas não lineares, baseado em banco de dados, criado pelo diretor no ano 2000, em função de necessidades de um projeto. A particularidade dessa plataforma, e dos filmes de Thalhofer disponíveis na internet, é de que cabe ao internauta controlar o desenvolvimento da narrativa.  “No mundo real, as histórias não se sucedem num esquema pré-estabelecido, elas se desenvolvem todas ao mesmo tempo. O computador é a mídia ideal para transpor esse principio”, afirma o diretor.

Se o principio é comum nas produções de webdocs, o que Thalhofer criou pode ser considerado um sistema próprio. A produção é toda baseada em SNUs (Smallest Narrative Units = Menores Unidades Narrativas), que seriam os blocos fundamentais de cada projeto: vídeos editados de 30 segundos a 2 minutos associados a palavras-chave ou regras específicas. A partir dessas palavras-chave são criadas possibilidades de “links” de entrada e saída entre as SNUs, os chamados “pontos de contato” (ou POCs). Um filme Korsakow (ou K-Film) é formado por essas várias conexões, num complexo mosaico de elementos. (Veja o vídeo abaixo)

Florian Thalofer recebeu diversos prêmios por produções desse tipo e Planète Galata mostra de forma eficiente como sua ferramenta pode ser utilizada para tornar palpável a diversidade e complexidade cultural em uma narrativa audiovisual.

Veja como funciona o sistema Korsakow:

Planète Galata
Distribuição: Arte
Em Francês e Alemão

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quarta-feira, 8 de setembro de 2010 Resenhas Nenhum Comentário

Um formato para séries e sequências

PIB L'indice Humain de la Crise Economique - National Film Board of Canada

PIB L'indice Humain de la Crise Economique - National Film Board of Canada

Desde setembro de 2009, o National Film Board of Canada (Escritório Nacional do Filme) disponibiliza na rede a série PIB – O Índice Humano da Crise Econômica Canadense. O projeto é um dos maiores trabalhos de webdocumentário já realizados, se propondo a documentar as consequências do cenário econômico nos habitantes do país.

Sob a direção da documentarista Hélène Choquette, uma enorme equipe distribuída pelo território canadense alimenta o site, em inglês e em francês, procurando retratar em vídeos as histórias das pessoas mais tocadas pela crise. A idéia inicial é a de que só é possível termos uma noção verdadeira da crise quando vemos o cotidiano sendo afetado: pessoas que perdem seus empregos, perdem confiança, precisam de dinheiro…

Assim, o webdoc revela casos como o de um operário desempregado do setor automotivo de Ontário, um administrador de hotel sem clientes há 10 anos na Colúmbia Britânica, as dificuldades vividas por jornalistas que perderam seus postos no mais importante jornal canadense ou os desafios na vida de um artista diante de um mercado em colapso. Ao todo, são 17 histórias contadas até o momento. Além disso, diversos ensaios fotográficos, agrupados por temas ou em um mapa, foram sendo realizados e disponibilizados no site.

PIB recebeu prêmios importantes, como o prêmio do público na categoria de webdocumentário do festival de WebTV de La Rochelle, comentado aqui em  Webdocumentário, e o Prêmio Numix de excelência em produção multimídia do Québec.

Se o projeto encontra reconhecimento, por trás de sua produção está uma das mais importantes agencias públicas de cinema do mundo. A National Film Board já produziu e distribuiu mais de 13 mil produções, ganhando mais de 5 mil prêmios.

Fundada por John Grierson, um dos principais nomes da história do documentário, a agência que marcou época chega com muito fôlego no século 21. Além de documentários, produções alternativas e animações, a NFB apoia conteúdos multimídias e desde 2009 oferece na web a exibição gratuita de centenas de seus filmes.

Séries on-line - Se PIB e a National Film Board encontraram na web uma nova forma para a narrativa de seus documentários, e em particular para as séries documentais, também outros produtores apostam em trabalhos de longa duração como este.

Camerawar - Uma nova forma de fazer cinema

Camerawar - Uma nova forma de fazer cinema

CameraWar é uma aposta do cineasta independente Lech Kowalski para uma nova forma de fazer filmes. Durante um ano, o diretor disponibilizou um novo vídeo a cada semana. Outro projeto: Interview Project, ancorado pelo cineasta David Lynch, mostra um pouco do estilo de vida americano em 121 entrevistas com pessoas “normais”, realizadas ao “acaso” por seu filho Austin Lynch durante 10 semanas numa viagem que atravessou os Estados Unidos.

A escolha pelas séries como opção pelos webdocumentaristas pode atender a um duplo propósito. Por um lado, permite uma maior profundidade de abordagem. Por outro lado, os projetos de longo prazo permitem uma exposição maior do produto e, em consequência, têm potencialmente uma audiência maior. Com isso, cresce o potencial de geração de receita – seja para modelos de financiamento baseados em publicidade, como o dos portais jornalísticos, seja para projetos financiados por patrocínios culturais de instituições que buscam retorno de imagem pelo reconhecimento da audiência.

Com a fragmentação do vídeo e a liberdade do espectador para navegar pelo conteúdo, a linguagem se renova e novos horizontes são criados para a representação da realidade no campo do documentário.

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quinta-feira, 26 de agosto de 2010 Resenhas Nenhum Comentário

A vida depois do Katrina

Five Years Later: Hurricane Katrina - USA Today

Five Years Later: Hurricane Katrina - USA Today

O jornal USA Today, um dos periódicos mais importantes dos Estados Unidos, lançou recentemente um hot site sobre o furacão Katrina. O projeto Five Years Later – Hurricane Katrina (Cinco anos depois: Furacão Katrina) traz um extensivo olhar sobre os efeitos da tragédia.

O jornal afirma que durante esses cinco anos vem publicando extensivamente reportagens sobre os esforços de reconstrução nas áreas afetadas, e que esse novo projeto é uma tentativa de “sumarizar o ponto em que nos encontramos, meia década depois”. E pergunta: “A vida mudou para sempre? As pessoas estão voltando? Mesmo que esse não seja o primeiro (nem o ultimo) olhar sobre os duradouros efeitos que atingiram a Costa do Golfo, esperamos que esse projeto multimídia ajude a responder essas e outras questões”.

A solução multimídia parece ter sido uma boa ferramenta para tratar o tema, agregando uma grande quantidade de conteúdo, distribuída em 14 páginas multimídias, com vídeos, fotografias e textos. O grande destaque é a seção Then & Now, que compara fotografias tiradas durante a catástrofe e fotografias recentes que mostram a reconstrução do local atingido.

Com a liberdade do espectador para navegar pelas seções, sem a velocidade que exige o conteúdo televisivo, e sem as limitações de espaço das mídias impressas, a internet se lança cada vez mais como uma plataforma eficaz para que o jornalismo possa tratar temas mais complexos.

Five Years Later – Hurricane Katrina
Produção: USA Today
Distribuição: USA Today
Em inglês

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terça-feira, 17 de agosto de 2010 Resenhas Nenhum Comentário

Os braços da França

Les Bras de La France - France 24

Les Bras de La France - France 24

No noroeste da França, na região da Bretanha, a pequena cidade que registra o código postal 22330 chama-se Collinée e tem pouco mais de 900 habitantes distribuídos por seus 7,06 km². Com números significativamente pequenos em território e população, a cidade mesmo assim tornou-se objeto de um webdocumentario lançado pelo canal de televisão francês France 24. O projeto 22330 Les Bras de La France (22330 Os Braços da França) conta a história dos trabalhadores que migraram da Republica de Mali para trabalhar no matadouro da pequena cidade.

O matadouro, hoje um gigante da indústria agroalimentar, começou nos anos 70, quando o açougueiro da cidade decidiu abrir um abatedouro. Precisando de mão de obra, ele recrutou malineses que encontrou próximo a Paris. A partir dos anos 80, esses imigrantes foram conquistando seu espaço, trouxeram suas mulheres (apenas uma, apesar de serem muçulmanos polígamos) e pouco a pouco foram misturando-se aos habitantes originários da cidade, muitos que até então nunca haviam visto um negro, segundo o webdocumentário.

Embora o filme afirme que em Collinée a experiência migratória integrou-se relativamente bem com a cultura local, a cidade não reflete a experiência das grandes metrópoles europeias, que não encontram meios para assimilar os vastos fluxos imigratórios. Se hoje os descendentes dessa geração de trabalhadores são franceses e em Collinée “o negro faz parte das cores locais”, ainda não é fácil para os imigrantes se sentirem em casa.

Apenas alguns adquiriram a nacionalidade europeia, muitos sentem falta do país que esperam retornar um dia. A mão de obra, a integração, a mestiçagem, a saudade do país e as diferenças culturas são alguns dos temas que encontram espaço no webdoc. Em meio a vídeos, fotografias e textos, todo esse conteúdo agrupado em uma interface simples em que se navega a partir de um menu principal, as histórias vão sendo contadas. O espectador pode assistir partindo do primeiro vídeo e seguindo para os demais, mas a qualquer momento pode também interromper a narrativa e voltar ao menu para escolher outros temas.

Se a pequena Collinée supera aos poucos as diferenças sociais e se, hoje, depois de três décadas de trabalho no lugar onde antes brancos “esfregam a pele dos negros para ver se a cor saía”, os imigrantes conquistam seu espaço, o webdoc faz um simples e tocante retrato dessas pessoas: “o país receptor não é nem uma página em branco, nem uma página fechada, é uma página em curso de ser escrita”. Les Bras de La France mostra que os braços que trabalham em Collinée são também os braços da França.

Les Bras de La France
Produção:
France 24
Distribuição:
France 24
Em francês

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quarta-feira, 11 de agosto de 2010 Resenhas Nenhum Comentário

De olho na periferia

Les Yeux Dans la Banlieue

Les Yeux Dans la Banlieue - Libération

Realizado em torno de uma equipe de futebol em Athis Mons, cidade na periferia sudeste de Paris, o webdocumentário Les Yeux Dans La Banlieue (De Olho na Periferia) faz um bom recorte sobre a situação dos jovens, filhos da imigração, que habitam as periferias da capital francesa.  Longe dos estereótipos e das abordagens tradicionais, que exploram o lado violento e conflitante dessa geração, o filme faz um retrato humano, abdicando de comentários em 3º pessoa e deixando que a narrativa se desenvolva apenas pela voz dos jovens entrevistados.

Futebol, conflitos raciais, imigração e inserção social já encontrariam bases bastante fortes para repercutir o webdoc pelo país europeu. Ainda assim, a abrangência do projeto foi amplificada no momento da estreia pois, por coincidência ou não, o site foi ao ar no começo de julho, algumas semanas depois da eliminação da equipe francesa no mundial de futebol, fato que despertou uma grande polêmica e debate sobre o caráter multicultural e a origem não francesa dos jogadores da seleção.

Mas a seleção nacional, assim como o pequeno time de Athis Mons, são apenas microuniversos de uma realidade que atinge cada vez mais a França e outros países do continente europeu. A imigração cresce vertiginosamente e é necessário assimilar e integrar esse contingente humano. As histórias dos jovens de Athis Mons, suas experiências com a escola, política, amigos, parentes, seu cotidiano e suas expectativas para o futuro, retratados no webdocumentario, levam o espectador ao centro desse contexto social.

A energia do filme encontra espaço na força e sinceridade dos depoimentos dos nove meninos e meninas que participam do projeto. Longe do modelo tradicional de documentário, construindo o discurso a partir da voz intelectual do realizador, aqui quem faz o filme são os próprios jovens e, nesse caso, a não linearidade do webdocumentário assume um papel fundamental.

Isso porque o Les Yeux dans La Banlieue não é um filme único, mas uma série de vídeos que compõe um complexo mosaico. É possível, por exemplo, clicar em um botão e assistir apenas a depoimentos de um determinado jovem sobre temas específicos, no mais clássico modelo documentário (entrevistado sentado de frente dando um depoimento para a câmera); ou então apostar em um modelo documentário completamente oposto, acompanhando o mesmo jovem nas ruas no seu dia a dia no estilo consagrado pelo cinema direto.

Se opções estéticas e formais sempre foram escolhas fundamentais para o realizador no campo do documentário. Os webdocs mostram que é possível conciliar modelos e expandir possibilidades, deixando a escolha a critério do espectador. Do futebol à vida nas periferias parisienses, quem ordena e interpreta a realidade é o espectador.

Les Yeux Dans La Banlieue
Produção: Zelios Interactive e Cente Nacional du Cinema et de l’Image Animée
Distribuição: Libération
Em francês

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segunda-feira, 9 de agosto de 2010 Resenhas Nenhum Comentário

Universitários vão a campo com Minha História, Meu Objetivo

My Story My Goal - Knight Center for International Media

“Existe um ciclo que números não conseguem explicar. Uma mãe dá à luz, em um mundo imperfeito. A criança vive em extrema pobreza e tem dificuldades para ter educação. A qualidade (de vida) não é garantida. E as doenças estão por todo lugar. Aceitamos esse ciclo como uma condição humana? Ou vemos isso como o começo de mudanças… Essa é a ideia por trás dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, das Nações Unidas. O objetivo é terminar com a pobreza extrema do mundo até 2015. Líderes globais estão reposicionando recursos para assegurar isso. Para realizar mudanças entre os mais pobres entre os pobres. Existem bilhões de pessoas querendo ser ouvidas, esperando ajuda. Essas são as pessoas mais vulneráveis, sob os maiores riscos.”

A narração, que abre o documentário This is My Goal (Este é meu Objetivo), define bem o contexto em que o projeto My Story, My Goal (Minha História, Meu Objetivo) está inserido. Querendo dar voz às populações mais afetadas pelos problemas humanitários, os produtores Rich Beckman e Tom Kennedy selecionaram 14 jovens jornalistas da Universidade de Miami.

O resultado é My Story, My Goal, um webdocumentário contendo pequenas narrativas desenvolvidas pelos jornalistas em diferentes países, cada um abordando temas sociais próprios, como a questão da educação na Índia, a mortalidade Infantil em Serra Leoa ou o combate à Aids na Tailândia. Ao todo são sete filmes, acompanhados de fotografias, textos e gráficos. A abordagem social e os desafios para superar esse quadro de pobreza, foram ainda condensados em um filme final de 26 minutos: This is My Goal.

Embora o documentário final tenha contado com a supervisão de Tom Kennedy, antigo redator-chefe multimídia do jornal Washington Post, as equipes foram formadas basicamente por estudantes, em uma parceria internacional entre a Universidade de Miami e outras universidades ao redor do mundo. Treinamentos e workshops de multimídia foram dados a professores na Ásia e África e estes treinaram seus alunos, que colaboraram com os estudantes de Miami em cada reportagem.

Todo o webdoc foi desenvolvido dentro de um projeto maior chamado Our City, do instituto de pesquisas Knight Center for International Media, da escola de comunicação da Universidade de Miami. Segundo o site do instituto, o Our City é um projeto de longo prazo, “focado nas transformações e desafios enfrentados pelas cidades ao redor do mundo, identificando desafios e criando e compartilhando conhecimento”. Com o uso da interatividade e acessibilidade dos webdocumentários, aliando à colaboração internacional que encontra cada vez mais espaço na rede, o instituo parece ter encontrado um bom caminho para atingir os objetivos de seu projeto.

My Story, My Goal
Produção: Knight Center for International Media,
Em Inglês

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segunda-feira, 2 de agosto de 2010 Resenhas Nenhum Comentário

Arqueologia ganha espaço

Un Archeologue Au Congo

Un Archeologue Au Congo - Le Monde

O jornal francês Le Monde é atualmente um dos principais articuladores de webdocumentários no mundo. Com uma produção constante, o site do jornal já distribuiu uma série tendo o corpo humano como elemento central (Le Corps Hanidcapé e Le Corps Incarcéré) e foi além das fronteiras documentais com a ficção multimídia Multi.  Este mês, foi lançado Un Archéologue au Congo (Um Arqueólogo no Congo), novo webdoc do portal, revelando novas propostas na apresentação e na temática de seus projetos.

Em relação aos temas, abordagens recorrentes em produções de documentários televisivos ou cinematográficos acabam sendo refletidas também nas produções para web. A relação é clara quando se analisa os assuntos abordados nas recentes produções de webdocumentários, permeando aspectos variados de um universo comum de temáticas sociais. Em sua mais recente produção, Le Monde abre espaço para outros campos, apostando desta vez na ciência e na história – temas ainda pouco explorados nas webproduções, embora foco de diversos canais especializados na TV a cabo.

Un Archéologue au Congo (Um Arqueólogo no Congo), conta a história de Geoffroy Heimlich, jovem pesquisador que busca registros de arte rupestre no Congo. Viajando sozinho, com recursos reduzidos, longe das terras europeias extensivamente exploradas por seus colegas de profissão, ele percorre caminhos pouco explorados, numa viagem extraordinária pela República Democrática do Congo.

A narrativa é feita apenas por fotos e depoimentos em off. Percorrendo paisagens, grutas e rochedos, o espectador pode tentar decifrar o mistério de inscrições e símbolos, alguns nunca vistos anteriormente. Embora o filme seja um pouco longo, a narrativa é livre, e quem assiste pode navegar diretamente para onde desejar, em um ambiente bem arranjado.

A reportagem inteira foi feita por Geoffroy durante o desenvolvimento de sua pesquisa de doutorado. O material foi montado posteriormente, em uma coprodução entre o jornal Le Monde e a webradio Arte Radio, parte do canal francês de TV a cabo Arte.  Embora a proposta seja muito boa e o pesquisador seja carismático, o resultado final deixa um pouco a desejar. A exploração do gênero é pouca, talvez pela falta de experiência do realizador em audiovisual, e o vídeo acaba se torna muito didático.

Un Archéologue au Congo
Produção
: Le Monde e Arte Radio
Distribuição: Le Monde
Em francês

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quinta-feira, 22 de julho de 2010 Resenhas Nenhum Comentário

Na Rota da Fome

Starved for Attention

Starved for Attention

Criado pela organização médica-humanitária Médecins sans Frontières e pela VIIPhoto Agency, reputada agência de fotografia, o projeto Starved for Attention (Famintos por Atenção), apresenta website com uma série de documentários multimídia sobre a questão da fome no mundo. Tudo foi feito para apoiar uma campanha: quem visita o site é convidado a assinar uma petição insistindo para que os governos de países desenvolvidos adotem medidas mais eficazes para combater a desnutrição.

No total são sete filmes, feitos por fotojornalistas da agência em regiões variadas.  A questão da fome é retratada não apenas em países com baixos índices de desenvolvimento humano como os africanos Burkina Faso, Djibouti, Congo e o asiático Bangladesh, mas também em países em desenvolvimento (Índia e México), e em economias desenvolvidas (Estados Unidos: “O Padrão Americano – Um Duplo Padrão”). Cada vídeo tem uma data de lançamento própria: o primeiro foi lançado dia 02 de junho, e o último está previsto para o dia 19 de julho. Com histórias dramáticas e recortes específicos para cada local, o projeto quer dar uma visão global sobre como a desnutrição afeta as comunidades.

Os filmes são construídos a partir de uma montagem unindo vídeos curtos, fotografias e depoimentos em off, características que vão se tornando recorrentes na linguagem de webdocumentários. Apesar da navegabilidade do usuário ser limitada, ainda é possível acessar um texto sobre a situação no país, uma biografia do autor e algumas fotos stills. Além disso, o site conta também com outras páginas, numa plataforma web mais “tradicional”, com menus, links, textos, blog e a própria petição, que os visitantes podem assinar.

Todo esse conteúdo, com exceção do blog, está disponível em nove línguas; reflexo do esforço dos produtores em tornar o projeto o mais acessível possível. Afinal, para tratar uma questão global, que necessita de esforços coletivos, é certamente necessário que se supere a própria barreira lingüística. Embora a grande maioria dos projetos de webdocumentário já proponham versões em inglês – a língua mais falada no mundo ocidental, Starved for Attention conseguiu ser muito mais abarcante, disponibilizando o conteúdo em línguas orientais como o Árabe e Japonês. A tarefa não é fácil, visto que é preciso que a diagramação do site seja adaptada de acordo a orientação adequada de uma dessas línguas.

O projeto tem mesmo fome de atenção. A desnutrição é um dos fenômenos globais menos documentados e mais mal compreendidos, atingindo uma população de 195 milhões de crianças somente este ano.  Abordando o tema através de webdocumentários, Starved for Attention convida a comunidade online à ajudar a reescrever essa história.

Starved for Attention
Produção: Médecins sans Frontières e VIIPhoto Agency
Em Inglês, Francês, Espanhol, Português, Alemão, Italiano, Grego, Árabe e Japonês.

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quarta-feira, 14 de julho de 2010 Resenhas Nenhum Comentário

A Viagem Lunar, 40 anos depois

We Choose The Moon

We Choose The Moon

Em 20 de julho de 1969 a missão Apollo 11 pousou na superfície lunar, colocando fim à corrida espacial e assinalando a chegada do homem à lua como uma das maiores realizações tecnológicas da humanidade. Marco histórico do século XX, a exploração espacial segue encantando astrônomos e admiradores, enquanto a missão lunar continua despertando controversas e teorias conspiratórias ao redor de todo o mundo.  O projeto We Choose The Moon, retransmite a cobertura do evento, refletindo possibilidades para cobertura de eventos importantes no século XXI.

Não poderia ser tarefa fácil para a John F. Kennedy Library & Museum – instituição que preserva os arquivos e a memória do presidente americano responsável pelo programa lunar – recriar o episódio de uma forma imersiva e contundente. O desafio para desenvolver We Choose The Moon, feito em parceria com duas agencias de criação e tecnologia (Domani Studios e The Martim Agency), seria transmitir uma reencenação em “tempo real”, distribuindo diariamente arquivos de áudio e vídeo para uma grande massa de espectadores.

O site foi ao ar dia 16 de julho e 2009, às 12h02min PM (UTC),  com o lançamento do foguete às 13h32min (UTC), momento exato do lançamento histórico 40 anos antes.  Durante quatro dias, o site reviveu a missão lunar, “ao vivo”, fornecendo transmissões de áudio originais, vídeos, fotografias, atualizações em texto via twitter e animações 3D. Nas primeiras semanas, o projeto recebeu mais de três milhões de visitas, sendo destaque em quase todos os grandes veículos de noticias norte americanos.

Atualmente, o site continua disponível on-line. Com o fim da missão,quando a nave aterrissou de volta ao planeta,  o projeto tornou-se uma experiência não linear onde usuários podem transitar livremente entre qualquer um dos 11 estágios da viagem lunar. Quem visita hoje o site ainda consegue sentir a força de um projeto configurado para suportar simultaneamente 1 milhão de streams de áudio, agregando cerca 400 fotografias e 44 arquivos de vídeo oficiais.

A idéia de dar uma nova vida à missão Apollo 11, usando a tecnologia de hoje, deu certo. Se há 40 anos, as pessoas seguiram a viagem da Apollo 11 através de televisões analógicas, revistas e jornais, no seu aniversário de 40 anos, podemos usufruir de recursos multimídias e uma experiência multisensorial. Embora seja difícil reviver o que sentiram os astronautas na época, o projeto  We Choose The Moon atinge o que mais perto se pode chegar com os recursos disponíveis atualmente. Com os avanços de tecnologias stream e aumento da velocidade de banda larga, o projeto reflete sobre um possível marco para coberturas jornalísticas de eventos importantes no futuro.

We Choose The Moon
Encomendado por
: John F. Kennedy Library & Museum
Produção: Domani Studios e The Martim Agency
Distribuição
: AOL
Em Inglês

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quarta-feira, 7 de julho de 2010 Resenhas Nenhum Comentário

Retratos de um Novo Mundo – Hong Kong, Cidade Extrema

Les Hommes Grenier - France 5

Les Hommes Grenier - France 5

A série Portraits d’un Nouveau Monde (Retratos de um Novo Mundo) se propôs a lançar, a cada dois meses, um bloco temático contendo quatro webdocumentários sobre questões políticas e sociais do século XVI. Depois de debater a China no primeiro bloco, e os fluxos imigratórios no segundo – com filmes resenhados aqui na webdocumentário -, o terceiro bloco da série discute a urbanização em: Urbanisation – Maximum City.

Les Hommes Grenier (Os Homens Sotãos), é um dos quatro filmes desse bloco, todos com a interface e navegabilidade que caracterizam os filmes do projeto.

No documentário, a questão urbana é refletida pelas favelas de Hong Kong, cidade que impressiona por sua urbanização vertical e alta densidade populacional. Mesmo sendo uma das maiores economias da Ásia, metade de sua população vive em condições precárias. Em imóveis insalubres se instalam os chamados “homens sótão”, majoritariamente jovens imigrantes oriundos da China ou aposentados sem fonte de renda.

Com um processo de urbanização acelerado e desordenado desde seu desenvolvimento econômico, Hong Kong vem recebendo milhares de chineses que atravessam a fronteira para tentar a sorte. Desde 1945, a população da cidade foi multiplicada por cinco. Com um território limitado geograficamente e um boom populacional, resolver a questão dos alojamentos tornou-se fundamental.

Em contraste com os arranha-céus magníficos projetados por arquitetos renomados mundialmente, Hong Kong esconde, próximo ao território chinês, imóveis deletérios em bairros como Tsim Tsa Shui, Mongkok e Sham Shui Po, onde não existem condições dignas de moradia.

Através de fotografias em preto e branco, vídeos e depoimentos, o webdocumentário conta histórias de vida como a de Xia Liu, Li Zhu e Sr. Hong, moradores desses imóveis minúsculos. Homens que vivem abaixo da linha da pobreza, amontoados em habitações de 2 metros quadrados e dividindo banheiros e cozinha. O vídeo revela, aos poucos, uma faceta oculta de Hong Kong, cidade apresentada sempre por seu frescor econômico. A força das imagens e comentários em off retratam o tema com emoção e força.

Les Hommes Grenier
Parte da série Retratos de um Novo Mundo
Produção
: Narrative
Distribuição
: France 5
Em francês

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segunda-feira, 5 de julho de 2010 Resenhas Nenhum Comentário